Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Sempre

De que crime falas, afinal?
De intentar na travessia ou de ficar parado?
Não acreditas ou não sentes que a outra margem é também tua,
qual estranho de ti próprio. Receias ir, e quando lá chegares,
talvez descubras o que sempre esteve por inteiro dentro de ti.
Oh mania de tudo fragmentar!
Sofremos por não nos sentirmos inteiros e somos.
E num qualquer truque interior, partimos tudo em cacos
para podermos enfim sofrer por não nos sentirmos inteiros.
E ainda sorrimos quando o cão gira
frenético para tentar agarrar a cauda.
Toda a viagem é sempre um regresso a casa.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Clamor

Um clamor inocente, que nada tem a ver
com doutrina, mas com simples viver.
Quando a revelação acontece, dá-se por ela?
E quando ela não acontece…
Vive-se a vida no engano de cada queda
nos parecer ascensão?
O que eu quero é não querer.
E se nada mais do que um clamor se fizer ouvir,
na distancia, então o que vou fazer
é escutar melhor.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

...

Nada escrever. Nada mais fazer do que fechar portas atrás de portas, até estar bem dentro do esquecimento, até as portas serem também uma ilusão. Assim, nada mais do que não existir. E ao não existir, nessa simplicidade, finalmente ser.

Sábado, 6 de Junho de 2009

Voar

Traz-me o sangue dos pássaros
Numa bandeja improvável sem som nem brilho.
Deixa as asas para trás. Fica com elas em segredo,
e as penas, lança-as de umas alturas à tua escolha.
Vou esperar pela sede, esperar pelo desespero
de um luar que nunca vai existir.
Pouco a pouco, da coagulação das horas,
virá a surpresa de um renascer que, por o ser,
não se reconhece.
Depois, é só voar.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Mesa

A mesa está ao contrário, com a perna partida a ser colada.
Talvez fique direita. A mesa está deitada em cima de outra mesa.
Esta robusta, de pé. Nada dizem uma à outra.
As cadeiras em volta estão tristes
porque gostariam de falar do que quer que fosse.
O silêncio está a varrer-lhes o sentido e o pranto.
Quando as coisas são assim, nada há a fazer
senão esperar. Algo sempre acontece.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Maio

Nenhum desalento irá percorrer as veias de flores adormecidas no jogo do alheamento suave das enganadoras tardes de Maio. Com o abrir dos olhos, o bocejar, o espreguiçar, como se dança de salão fosse, assim tão ritualizada, feita sonho de sonhador ocasional. Para que servem esses movimentos, afinal? Eles revelam-se. Basta estar atento e depois decifrar toda aquela multiplicidade de verde por baixo das flores.

Sábado, 9 de Maio de 2009

Ecce sentire

Eis a Paixão da paixão
instante suspenso no tempo,
depois sepultado num caixão.
Pode o sentido ter sentir e sofrer
como a carne e o pensamento?
Ser flagelado e de seguida,
exposto aos olhares sub-nutridos
da compaixão?
Os dias são respirados
na mecânica inconsciência
da crucifixão. Será isso a alma?
A esperança na redenção?
Não ser a carne a transfigurar-se,
mas o sentir?